sábado, Janeiro 02, 2010

Ouro, Incenso e Mirra


“Ouvido o rei, puseram-se a caminho. E eis que a estrela que tinham visto no Oriente seguia à sua frente e parou sobre o lugar onde estava o Menino. Ao ver a estrela, sentiram grande alegria. Entraram na casa, viram o Menino com Maria, sua Mãe, e, prostrando-se diante d’Ele, adoraram-n’O. Depois, abrindo os seus tesouros, ofereceram-Lhe presentes: ouro, incenso e mirra. E, avisados em sonhos para não voltarem à presença de Herodes, regressaram à sua terra por outro caminho.”

À longa viagem feita pelos Magos e à sua adoração do Menino, o texto de Mateus associa também a oferta dos três dons. O dom é um supremo acto de verdade. Os dons que recebemos nestes dias natalícios distinguem-se em duas características substanciais. Há coisas que recebemos e podemos definir como anónimas. Reconhecemos o gesto de afecto, mas a amizade e a ligação expressa pelo dom não colhiam a peculiaridade da nossa pessoa. Só quem nos conhece sabe de que é que precisamos ou adivinha gostos e desejos. Nesse caso, a oferta reforça a relação porque é uma verdadeira e própria mensagem pessoal. Sentimo-nos conhecidos e amados. Sabemo-nos amados e o conhecimento profundo expresso pela oferta reforça esta certeza. Não nos deve admirar, então, se a reflexão patrística desde sempre viu no ouro, no incenso e na mirra, um acto de reconhecimento por parte de quem oferece. Eles sabem bem onde estão e na presença de quem. Expressam-nos através de sinais mudos e eloquentes ao mesmo tempo. Sabemos como o ouro reconheça no Menino a realeza, o incenso declara a divindade e a mirra constitui a anúncio do seu destino de sofrimento. Não é necessário que a página de Mateus transmita em discurso directo qualquer palavra dos sábios do Oriente. Já está tudo dito através dos três sinais. O céu mostrou uma verdade sublime à qual eles aderiram completamente. Mas o dom não é só o momento em que o destinatário se sente lido e conhecido. Este é um dos dois extremos revelados pelo facto de oferecer alguma coisa. Também o doador fala de si em relação aquele que oferece, oferecendo-lhe qualquer coisa e descreve a própria identidade. Os Magos, por outras palavras, abrem o seu coração e oferecem o que contém. Por isso é possível tentar uma outra leitura dos três dons associados à solenidade hodierna. O ouro, riqueza visível, representa o que se possui e ainda mais, o que se é em relação ao próprio valor. Cada um de nós adverte dentro de si algum fio de ouro; por graça de Deus vivemos instantes de autêntico e desinteressado amor. Como no fundo de um ícone ou em alguma parte de um antigo mosaico também nós conhecemos toda a riqueza que o coração humano pode libertar. Nós somos ouro. O incenso, invisível como Deus, representa o desejo de cada um. Quando queima, sobe ao céu, imagem de da oração que incessantemente o homem religioso eleva ao céu para viver uma vida feliz e serena. Imperceptível e intangível, o incenso expande o seu aroma inconfundível como não é confrontável o desejo próprio de cada um. A pessoa torna-se aquilo que deseja, porque é uma porção de desejos que se transformam em projectos e resoluções. É impossível conhecer um homem sem penetrar, pelo menos um pouco, no mundo dos seus desejos, sejam sonhos, fantasias ou iminentes realizações. Nós somos incenso. A mirra cura as feridas mas preserva também da corrupção. Representa a tutela que cada um tem de si e a defesa das próprias fragilidades. No entanto, exprime também a vontade de conservar a vida, reter o tempo da inevitável degradação trazido pelos dias que passam. Não há verdade de si próprio sem a consciência das próprias perdas e das feridas que a vida – sobretudo o nosso pecado – inferiu no espírito e na alma. Nós também somos mirra. O nosso valor, os nossos desejos e a nossa fragilidade constituem o nosso tesouro. Há um género de percurso na oferta que vai do que já está em nosso poder, para chegar ao que nos falta e aproar, enfim, naquilo que não nos podemos dar sozinhos: a eternidade e a incorruptibilidade. Da gratuidade à súplica, podemos dizer, leva o percurso significado pelo ouro, pelo incenso e pela mirra. Os Magos, precursores de todos os crentes, oferecem tudo isto ao Menino. Abrem o seu tesouro para que aí entre o Filho de Deus. Só quando a nossa fé chama Cristo à profundidade da alma, para que fecunde o desejo, conforte a fragilidade, dê verdade aos nossos melhores momentos, então, uma tal fé não é simplesmente hábito cansado, mas vida da nossa vida, interacção contínua com a nossa identidade. Dando o que são, os Magos recebem aquele que é realeza, divindade e mortalidade redimida. Assim esses tornam-se semelhantes a ele. A troca é ímpar por quanto os dons possam parecer preciosos. Neste sentido, a Epifania é verdadeiramente o Natal da alma, solenidade na qual a objectividade do evento penetra toda a subjectividade dos adoradores do Verbo. Se Deus nasce no homem, ainda nada está redimido até que o homem não renasça em Deus. Aqui cumpre-se o caminho dos Magos. Só aqui se pode cumprir o nosso caminho pessoal de salvação, numa sincera e total abertura do nosso tesouro interior a Cristo que seja oferta das nossas riquezas e das nossas pobrezas, sem nada selar, sem nada camuflar.

1 comentário:

rose disse...

Admirei seu comentario e farei uso dele hj aqui em um sermao, muito bom! Abracos, silvio, fuji japao.